06.10.2026 · Signal Titans Editorial
Decifrando a aglutinação: como Karl Landsteiner desvendou os grupos sanguíneos
Karl Landsteiner descobriu os grupos sanguíneos humanos na Universidade de Viena, transformando transfusões de alto risco em uma prática médica segura e vital.

No início dos anos 1900, Karl Landsteiner, um pesquisador austríaco de trinta e poucos anos que trabalhava na Universidade de Viena, coletou amostras de sangue dos próprios colegas de laboratório. Em vez de tratar o sangue como um fluido homogêneo, ele combinou de forma sistemática os glóbulos vermelhos de um colaborador com o soro líquido de outro. Ao olhar pelo microscópio, observou que, enquanto certas combinações se misturavam sem problemas, outras provocavam um agrupamento celular imediato. Essa simples rotina de laboratório desvendou um enigma médico que intrigava os médicos havia séculos.
Uma aposta médica mortal
Por centenas de anos, as transfusões de sangue foram uma aposta imprevisível. Em meados do século XVII, médicos europeus tentaram transferir sangue de ovelhas, cães e doadores humanos para pacientes, segundo os registros da Fundação Nobel. Esses primeiros procedimentos frequentemente causavam reações fatais, o que levou à proibição oficial das transfusões na França, na Inglaterra e na Itália. No início do século XIX, um médico britânico realizou a primeira transfusão bem-sucedida registrada de humano para humano, utilizando o sangue de um marido para tratar a hemorragia pós-parto de sua esposa. Apesar desse êxito, as transfusões continuavam sendo um último recurso raro. Até mesmo o industrial Alfred Nobel tentou resolver o mistério das reações sanguíneas fatais na década de 1890, mas não conseguiu descobrir a causa.
A aglutinação celular no laboratório de Viena
Atuando nas áreas de anatomia patológica e imunologia na Universidade de Viena, Landsteiner abordou o problema sob uma perspectiva bioquímica. Ao testar o soro sanguíneo contra glóbulos vermelhos externos, ele demonstrou que as reações adversas ocorriam quando o receptor possuía anticorpos naturais direcionados às células do doador. Esse processo, conhecido como aglutinação, fazia com que os glóbulos vermelhos do doador se agrupassem. Na corrente sanguínea do receptor, esses blocos celulares acumulados podiam obstruir vasos sanguíneos vitais e interromper a circulação, ou romper-se e liberar conteúdos tóxicos diretamente no organismo, com consequências fatais.
A descoberta do sistema ABO e a revolução na cirurgia
Landsteiner utilizou suas descobertas experimentais para dividir o sangue humano em três grupos distintos, denominados A, B e O, com um quarto grupo, AB, sendo identificado pouco tempo depois. A classificação estabeleceu que uma transfusão segura exigia a compatibilidade entre os tipos sanguíneos do doador e do receptor. A prática médica adaptou-se rapidamente a esse sistema. Durante a Primeira Guerra Mundial, cirurgiões militares realizaram transfusões de sangue em grande escala operacional pela primeira vez, salvando soldados feridos no campo de batalha. A tipagem sanguínea também viabilizou procedimentos cirúrgicos complexos antes impossíveis devido à perda de sangue, forneceu ferramentas forenses para analisar sangue seco em cenas de crime e possibilitou os primeiros testes de paternidade.
Reconhecimento do Nobel e a descoberta do fator Rh
Em 1930, Landsteiner recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina pela descoberta dos grupos sanguíneos humanos. Ele deu continuidade às suas pesquisas imunológicas por décadas, colaborando na década de 1940 para a descoberta do sistema de grupo sanguíneo Rh. Embora os pesquisadores modernos tenham identificado desde então mais de 200 sistemas de grupos sanguíneos menores, as classificações ABO e Rh continuam sendo o padrão fundamental para a compatibilidade de doações de sangue em todo o mundo.
Todos os anos, em 14 de junho — data de nascimento de Karl Landsteiner —, o Dia Mundial do Doador de Sangue celebra o sistema global de saúde construído sobre a sua observação inicial de laboratório de que os glóbulos vermelhos não são idênticos. Hoje, os serviços de saúde globais coletam cerca de 118 milhões de doações de sangue anualmente, confiando nos protocolos de tipagem sanguínea estabelecidos pelos primeiros experimentos de Landsteiner em Viena para realizar transfusões vitais com segurança todos os dias.
Ilustração editorial gerada por IA; não é uma fotografia documental.
Fonte: Nobel Prize Finding the key to safe blood transfusions