01.10.2026 · Signal Titans Editorial
Redefinindo o monstro: como o que rompe categorias revela os limites do conhecimento humano
A historiadora Surekha Davies explora como a ideia do monstro expõe os medos humanos diante de fronteiras em constante transformação.

Quando o debate público se voltou para a engenharia genética no final do século XX, as preocupações da sociedade concentravam-se frequentemente em vazamentos de laboratório, epidemias imprevisíveis e na criação de figuras ao estilo Frankenstein. Para a historiadora da ciência Surekha Davies, esses receios integram uma longa trajetória histórica sobre como a humanidade classifica o mundo. Em entrevista ao podcast Distillations, Davies propõe redefinir o monstro não como uma mera criatura de ficção ou um infrator social, mas essencialmente como uma entidade que rompe categorias e desestabiliza fronteiras conceituais rígidas.
Dos mapas à astrobiologia
O interesse de Davies pela história da ciência começou na infância com o fascínio pela exploração espacial, o que inicialmente a levou à física teórica antes de migrar para a literatura de viagem e a cartografia do início da Era Moderna. Ao examinar mapas europeus e relatos sobre as Américas no século XVI, a pesquisadora observou como os cartógrafos catalogavam climas e populações desconhecidas. Eruditos europeus supunham que viver sob condições ambientais extremas alterava os traços físicos, originando povos considerados monstruosos. Davies percebeu que essa estrutura histórica se assemelha à forma como astrobiólogos contemporâneos teorizam sobre a vida extraterrestre, projetando que ambientes distintos devem gerar formas de vida completamente diferentes.
Segundo a historiadora, essa conexão conceitual ficou evidente durante um painel de astrobiologia na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. Enquanto os participantes focavam em defesas militares contra ameaças alienígenas ou patógenos espaciais, Davies questionou sobre o preparo social global, a confiança nas instituições e a resiliência cultural. Ao ouvir que examinar estruturas sociais não era a pergunta correta, ela observou que a perspectiva das ciências humanas continua indispensável para avaliar políticas científicas e planejar a reação a descobertas inesperadas.
A fluidez dos sistemas vivos
Davies estende sua análise das quebras de categoria para a biologia moderna, destacando a genética e a microbiologia. Enquanto as classificações humanas costumam tratar as espécies como entidades estáticas, os genomas individuais mantêm interação contínua com fatores ambientais. Mecanismos epigenéticos ativam ou desativam genes em resposta a estressores externos ou traumas severos, revelando que a biologia humana é dinamicamente variável ao longo do tempo.
Os micro-organismos reforçam os limites das divisões taxonômicas estritas. Vírus, situados na fronteira entre o vivo e o não vivo, injetam material genético em células hospedeiras e alteram o funcionamento dos organismos. Davies nota que essas realidades biológicas desafiam definições rígidas de identidade. Reconhecer o que rompe categorias oferece uma perspectiva editorial sobre o progresso científico: fronteiras absolutas são frequentemente construções humanas convenientes, e não características fixas do mundo natural.
Ilustração editorial gerada por IA; não é uma fotografia documental.
Fonte: Distillations podcast Humans and Monsters: An Interview with Surekha Davies